Uso de canal de denúncias tem expansão no ambiente corporativo

Conforme especialista, uso da ferramenta permite que as empresas atuem sobre suas vulnerabilidades e riscos operacionais e econômicos

São Paulo - O uso do canal de denúncias apresentou expansão no âmbito corporativo brasileiro. Um levantamento feito pela unidade de negócios de outsourcing da consultoria ICTS, realizado com 141 companhias do País, mostrou que, neste ano, houve uma taxa média de 22,3 denúncias por mês por empresa, um aumento de 45,7% em comparação aos registros de dois anos antes.

As estatísticas do estudo indicam que o canal de denúncias é o mecanismo de compliance que mais cresceu nas empresas após o amadurecimento da Lei Anticorrupção. Em 2014, na primeira versão do estudo realizado pela ICTS, a amostra da pesquisa envolveu 88 companhias, que apresentaram uma taxa média de 15,3 denúncias por mês por empresa.

De acordo com a pesquisa, este aumento significativo reverbera o movimento pró-ética no Brasil, deflagrado nas manifestações do ano de 2013, e que ganhou força e repercussão nacional com a introdução da Lei 12.846 e o desenvolvimento da operação Lava Jato.

Considerado como uma ferramenta de empoderamento dos colaboradores, o canal de denúncias abre possibilidades de comunicação transparente e direta, permitindo que as empresas identifiquem e atuem sobre suas vulnerabilidades e riscos operacionais, econômicos, sociais e políticos.

Benefícios

De acordo com o sócio diretor da ICTS, Cassiano Machado, o Retorno do Investimento (ROI) do canal de denúncia, que já é percebido no tratamento dos casos de relacionamento interpessoal, é maximizado quando há relatos envolvendo má intenção ou atos ilícitos na organização, incluindo economias geradas pelas ações de ruptura, recuperação e prevenção sobre os contextos denunciados.

Além da orientação da criação do canal de denúncias como ferramenta para colocar em prática a cultura da ética nas empresas, Machado também explica sobre os efeitos de se terceirizar esse mecanismo. "O canal operado por uma organização externa à empresa proporciona plena segurança aos colaboradores e demais públicos que utilizam este instrumento, uma vez que o registro, a análise e o encaminhamento das denúncias são conduzidos de forma isenta, fora dos limites da companhia", explicou.

Além disso, de acordo com Cassiano Machado, o atendimento é realizado por especialistas que passam por programas de treinamento e capacitação constantes para estabelecerem com os denunciantes uma interação positiva, técnica e assertiva, que proporciona melhor qualidade às informações coletadas, otimizando o esforço para apuração e resolução dos casos. 

Maioria das motivações é de aspecto interpessoal

A principal motivação dos relatos, de acordo com a pesquisa, é de cunho pessoal. Em relação ao tipo de situação denunciada, 44,3% refere-se a delações relativas a relacionamento interpessoal. Dentro desta fatia, as práticas abusivas ligadas a assédio moral, sexual, agressão física, discriminação ou preconceito apresentam-se como mais recorrentes, equivalendo a 27,8% das denúncias.

Delação de ilícitos e de má intenção somam 32,8% do total geral de denúncias registradas. Situações como violações às leis, favorecimento ou conflito de interesses, fraude, roubo, furto ou desvios de materiais representam 28,1%.

De acordo com Cassiano Machado, o estudo alerta que, mesmo que o foco ainda seja mais o interesse do indivíduo do que ao da organização, estabelecer um mecanismo de apuração, garantindo um encaminhamento ético adequado à denúncia, é um passo importante para que haja engajamento em comunicar situações que impactem os negócios da empresa. 

"A ação da empresa em gerir adequadamente os casos individuais irá gradativamente orientar a cultura ética da organização para que os interesses coletivos, quando colocados em risco, sejam também percebidos e informados pelos denunciantes", disse o executivo. E é justamente neste quesito que a empresa consegue o retorno do investimento.

A análise do estudo do ICTS considerou, no total, 140 mil relatos de denúncias registradas entre 2009 e 2016, envolvendo 141 companhias brasileiras de diferentes portes, segmentos e regiões do País.

Reprodução: Diário do Amazonas